Tom Jobim


Janeiro de 1927, verão carioca tipicamente chuvoso. Naquele fim de década aconteceram na então capital do Brasil fatos que ficariam para a posteridade: Cartola fundou a Estação Primeira de Mangueira, perpetuando em sua bandeira o verde da esperança e o rosa do amor. Aloysio de Oliveira criou o Bando da Lua, grupo que fazia bonito ao lado de Carmen Miranda aqui e nos Estados Unidos. E o Cristo Redentor, como que pairando sobre o Corcovado, foi inaugurado para olhar a cidade para sempre.


No dia 25 daquele janeiro, na rua Conde de Bonfim, 634, no tradicional bairro da Tijuca, nascia Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim. Seu nascimento certamente não provocou comoções gigantescas como a inauguração do Cristo, muito menos deve ter gerado batucadas como as ouvidas no morro da Mangueira. Porém, naquela noite chuvosa, sem que ainda se soubesse, o mundo ganhava um dos maiores músicos de todos os tempos.


A frase acima pode parecer exagero, lugar-comum, clichê. Mas ouvindo músicas como Águas de Março(o samba mais bonito do mundo, nas palavras de Chico Buarque, e motivo de admiração de um poeta como Carlos Drummond de Andrade),Wave,Triste, só para ficar entre as mais conhecidas, dá para perceber que não é exagero. Na verdade, o difícil mesmo é entender o que a música de Tom assim apelidado por sua irmã Helena provoca na gente.


Na praia, no piano


Tom nasceu na Tijuca, mas logo iniciou uma série de mudanças que marcariam sua infância. Em 1931 a família trocou o bairro por Ipanema, na época ainda um areal quase desabitado. Ficaram por lá um breve período, logo indo para Copacabana. Em 1935, Jorge Jobim, seu pai, faleceu. Tom, Helena e a mãe foram morar numa pensão no mesmo bairro. A mãe de Tom logo se casou novamente e a família voltou para Ipanema, numa casa com fundos para a lagoa Rodrigo de Freitas. Naquele tempo, a zona sul carioca ainda não provocava o fascínio que a geração de Tom ajudou a fomentar com música, poesia e atitude: no fim do século 19, a região do Jardim Botânico era um bairro fabril e a lagoa, uma área desvalorizada. Nessa época, de acordo com Tom, a lagoa era transparente, com algumas conchas no fundo, garças, marrecos, gaivotas, martim-pescador. Esse lado ainda selvagem do bairro foi muito explorado por ele, que tinha uma relação intensa com a praia: nadava, pescava e às vezes arriscava um mergulho das pedras do Arpoador. Tal fascínio pela natureza iria aparecer em sua obra mais tarde, em canções sobre o mar, a floresta e os pássaros.


Ao lado da intensa vivência com a natureza, já existia a paixão pela música. Por volta dos 14 anos,Tom deparou com um piano na garagem de casa.Era alugado, para que Helena aprendesse a tocar.Mas ele é que seria fisgado pelo instrumento a irmã queria ser escritora. Começou a aprender e a exercitar seus conhecimentos em escala, composição, harmonia, além de estudar compositores clássicos como Chopin, Debussy e Villa-Lobos. Foi nessa época que Tom compôs Imagina, valsa que na década de 1970 ganhou letra de Chico Buarque para o filme Para Viver um Grande Amor, e que também entrou no CD Carioca, recentemente lançado por Chico.


Noites do Rio


Tom cresceu, e também cresceu nele a vontade de viver de música. Um ditado antigo dizia que música não dava dinheiro a ninguém, e, como era bom em desenho, prestou vestibular de arquitetura. Em 1949, com 22 anos, casou-se com Thereza Otero Hermanny, sua namorada desde os primeiros anos da adolescência. Deveria haver outro ditado dizendo que segurança não traz, necessariamente, felicidade. Tom logo percebeu isso: abandonou as plantas e as réguas e foi fazer o que mais sabia: tocar piano.


Tocar piano na noite carioca dos anos 1950, mais precisamente. E Tom foi parar justamente onde tudo fervilhava: em boates como Drink, Sachas e Vogue, encerrando a noite no boteco Far-West, no Posto 6.Uma Copacabana regada a hectolitros de uísque e movida por paixões fulminantes. O jovem Tom tocava em boates que seriam berço de grandes nomes que logo estourariam com a bossa nova, como Newton Mendonça, Johnny Alf, Dolores Duran e Silvinha Telles.


As andanças de Tom pelas madrugadas foram curtas, ao menos como pianista: em 1952 ele tornou-se arranjador da gravadora Continental.Foi lá, passando para a pauta sambas alheios (mas não quaisquer: alheios como Pixinguinha,Assis Valente,Ary Barroso, Dorival Caymmi, Ismael Neto), que ele se animou a compor.O gaúcho Radamés Gnatalli, maestro da Continental e grande pianista, regente e compositor, adotou Tom como seu mais ilustre afilhado musical.


Em abril de 1953, Tom estrearia como compositor em disco gravado por Muricy Moura, com o samba Incerteza, em parceria com Newton Mendonça. Dois meses depois, mais duas composições em um disco de Ernani Filho: Pensando em Você e Faz uma Semana.


A montanha, o sol, o mar


Sinfonia do Rio de Janeiro, parceria de Billy Blanco com Tom Jobim, de acordo com a versão do primeiro, nasceu a bordo de uma lotação, em pleno verão de 1954. Billy estava a caminho de casa, em Ipanema, quando percebeu a paisagem exuberante a montanha, o sol, o mar de Copacabana , que lhe rendeu uma inspiração musical instantânea: Rio de Janeiro, que eu sempre hei de amar/ Rio de Janeiro, a montanha, o sol, o mar. Com medo de esquecer o mote, saltou da lotação, entrou no primeiro botequim e ligou para Tom, pedindo que ele anotasse tudo. Assim nasceram os primeiros compassos da Sinfonia do Rio de Janeiro um tremendo fracasso de vendas, mas que consolidou a reputação de Tom e antecedeu o primeiro grande sucesso do compositor, Tereza da Praia, também de 1954.


O fim dos anos 1950 trouxe para Tom aproximações que renderiam frutos para a história da música popular brasileira. Em 1956 ele conheceu Vinícius de Moraes, diplomata e poeta já famoso nas rodas boêmias. E fizeram, logo de saída, a ópera Orfeu da Conceição (cujo título foi sugerido por ninguém menos que o poeta João Cabral de Melo Neto), de onde saíram obras-primas como Se Todos Fossem Iguais a Você e Lamento do Morro.


Já instalado no apartamento da rua Nascimento Silva, 107, em Ipanema, Tom fazia valer a amizade com Vinícius: uísque, madrugadas em claro e criação de samba era o que não faltava. Além disso, mais um novo amigo viria para a turma, e ainda trazendo um violão: um baiano cabeludo e esquisito, ninguém menos que João Gilberto.










Um cantinho e um violão


Pois Tom foi um dos pais da bossa nova meninos como Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Carlos Lyra e Nara Leão acharam na batida de João Gilberto e nas composições de Tom seu lugar no mundo. Ou pelo menos no Brasil. E não era qualquer Brasil. O país que Tom revelava em suas harmonias e acordes vivia de promessas: de desenvolvimento, com a construção de Brasília, a nova capital. De modernidade, com os automóveis Kharmann Ghia, os vôos da Panair, as belas meninas de vestido tubinho, cílio postiço e biquíni. E, especialmente, promessas de elegante e sutil delicadeza que pairava sobre as canções: Muita calma pra pensar/ E um cantinho pra sonhar/ Da janela vê-se o Corcovado, o Redentor, que lindo, dizia Corcovado, uma de suas incontáveis obras-primas.


A música de Tom Jobim nos transporta a esse lugar repleto de poesia, natureza e encontros. Pois é. Fundamental é mesmo amar.


O resto é mar


Se Este teu Olhar, Meditação e Garota de Ipanema, nos anos 1960, já revelavam a beleza das canções de Tom que gravaria com Frank Sinatra um álbum clássico do cantor americano , as canções seguintes ainda trariam muitas surpresas. Só de saída, as muitas parcerias de Tom com Chico Buarque (quando o Tom entra com um acorde dele, parece que abriram uma janela), cada uma mais fenomenal que a outra. Só para citar algumas: Retrato em Branco e Preto, Sabiá, que inclusive protagonizou a célebre briga entre alienados e engajados ao vencer o III Festival da Canção e ser vaiada pelo público.


No auge da ditadura militar, começou a fase ecológica de Tom Jobim. Chamar de ecológicas músicas como Matita Perê, Águas de Março, Boto e Correnteza não define nem de longe o mergulho de Tom na natureza, perpassado por melodias sofisticadas que recuperavam ritmos como o baião e a embolada.Mas o fato é que o compositor conhecido pelos temas urbanos e modernos voltou-se para as raízes naturais que estavam nele desde a infância perdida entre a praia e as montanhas cariocas.Por muito tempo,Tom foi um grande defensor da natureza: um verdadeiro ambientalista, saindo em defesa dos rios e florestas.


É pau, é pedra


Águas de Março foi escrita em papel de pão em meio às obras do sítio de Poço Fundo refúgio num vale fechado por onde passava um vento forte que Tom apelidou de vento redondo. Era março e a casa do sítio estava em construção, o que serviu de mote para uma das mais belas criações do compositor. Águas de Março alterna a força da natureza (É peroba do campo, é o nó da madeira/ Caingá, candeia, é o matita-pereira) com o estado natural das coisas que são levadas pela enxurrada do cotidiano, como as enumeradas na canção: é o fim do caminho.


Nos anos 1970 aconteceram mudanças na vida profissional e pessoal de Tom. Em 1977 separou-se de Thereza para casar-se com Ana Lontra, fotógrafa, com quem futuramente teria dois filhos: João Francisco (morto em um acidente de carro alguns anos depois da morte do compositor) e Maria Luiza. Nos anos 1980, além de trilhas sonoras de novelas e filmes (como Para Viver um Grande Amor e Gabriela), nasceu a Banda Nova, que contava com a participação de Danilo Caymmi, Paulo Jobim, Tião Neto, Paulo Braga, Ana e Beth Jobim, Simone, Paula,Miúcha (que faziam os vocais) e Jacques Morelenbaum.


Piano na Mangueira


Paratodos, canção de Chico Buarque de 1993, faz uma homenagem definitiva a Tom Jobim: Meu maestro soberano/ Foi Antonio Brasileiro. Numa toada também inspirada numa música de Tom, Stone Flower (em que ele fez um de seus diversos autoplágios), Chico enumera grandes nomes da música brasileira (como Dorival Caymmi e Ary Barroso), numa jornada musical e poética que começa e termina em Antonio Carlos Jobim.


Um ano antes, ele recebera outra grande homenagem: ter sua obra como tema do samba-enredo da Mangueira. E lá foi Tom para a avenida, desfilar em cima de um carro com mais de 6 metros de altura.Morrendo de medo de cair, é verdade... mas firme no samba verde-e-rosa.


A celebração apoteótica na avenida, o reconhecimento popular de sua música (o que ele mais queria era que fosse entendida por todos), imortalizava Tom como Maestro Brasileiro, antecipando a canção de Chico: na avenida, era nascente e afluente de muitas tradições. Piano na Mangueira, feita em parceria com Chico, é um depoimento de quem parece não se importar com a própria grandiosidade: A minha música não é de levantar poeira/ Mas pode entrar no barracão.


Não apenas no barracão: a música de Tom já faz parte do entendimento do que somos ou do que queremos ser como brasileiros.Uma música que revela e recria o Brasil, tendo compromisso unicamente com algo que parece cada vez mais raro: a beleza plena, simples e verdadeira. Música que certamente só poderia ter sido inventada por alguém que certa vez chamou a si próprio de um aprendiz de ternuras.


Tom faleceu em 1994, aos 67 anos. Mas é urgente que viva, sempre, em suas canções, para que a gente não esqueça que o mundo pode e deve ser muito mais bonito.


Para saber mais


Livros:
- Um Homem Iluminado, Helena Jobim, Nova Fronteira
- Três Canções de Jobim, Lorenzo Mammì, Arthur Nestrovski, Luiz Tatit, Cosac Naify
- Cancioneiro Jobim, Jobim Music/Casa da Palavra









Família Jobim





                                                 


Presença de Jobim - Tom faz parte, é claro, da lista de músicos que Maria Luiza costuma ouvir - entre as composições dele, a faixa instrumental Saudades do Brasil, do disco Urubu (1975), é a preferida da filha. Gravar músicas dele, no entanto, não faz parte dos planos no momento. "Isso já passou pela minha cabeça. Mas agora eu viso uma coisa mais autoral. Quero fugir à obrigação de ficar sempre cantando o meu pai. Sei que vou estar sempre atrelada a ele, que as pessoas vão sempre lembrar que sou filha dele. Então, agora quero fazer algo meu."


Ana Jobim, com sua filha Maria Luiza, segura prêmio recebido na sede da ONU (Foto: Mariana Vianna/Divulgação)



Em seu show, Paulo Jobim, filho do inesquecível Tom Jobim, apresentou outras joias da família:Maria Luiza e Isabel Jobim, filha e neta do maestro, respectivamente.







Esta semana também li uma reportagem que me deixou particularmente feliz: um depoimento da Ana Lontra Jobim, esposa de um dos maiores maestros que a nossa música produziu, e excelente fotógrafa. A Ana contou que quando teve sua última filha, a Maria Luiza, o Tom declarou que a filhota era um gênio! Maiorzinha, a Maria Luiza ficava a desenhar embaixo do piano, enquanto o pai compunha e tocava… O Tom pediu à Ana que prometesse que não colocaria a filha para estudar desenho, porque poderiam tolher seu potencial criativo.
Um belo dia sai a Maria Luiza a dançar embalada pelas notas que o pai produzia em seu piano. A Ana, novamente, tem que prometer nunca colocar a filha para estudar dança numa escola, pois isso poderia comprometer sua criatividade e espontaneidade.
Depois de abordar sobre isso, Ana reflete sobre o fato de que essas atitudes do maestro foram sábias: hoje Maria Luiza é uma moça segura, sabe se colocar, desenha e dança muito bem!
Sábio maestro, perfeito poeta!




 João Francisco Jobim, 18 anos, filho mais velho do compositor Tom Jobim com a fotógrafa Ana Jobim. (Morto em acidente de carro).

Chovia muito quando Tom Jobim nasceu. Ainda não eram as águas de março que fecham o verão, mas as de janeiro que o repartem ao meio. Janeiro, 25, 1927, onze e quinze da noite de uma terça-feira. Muita água caindo do céu, nenhuma saindo das bicas da rua Conde de Bonfim, no bairro carioca da Tijuca. O conserto de um cano viera perturbar o nascimento do primeiro filho de Jorge Jobim  e Nilza Brasileiro de Almeida, na casa de nº 634. Com a ajuda do irmão de Nilza, Marcelo, a quem coube a tarefa de providenciar água para o parto, e de sua irmã Yolanda, que se desdobrou na cozinha para que não faltasse café para o dr. Graça Mello, que o bebia em doses quase industriais, Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim finalmente veio ao mundo com quase 60cm de comprimento e pesando quatro quilos.Aquariano com ascendente em Libra, dois signos ligados ao ar como os seres alados que tanto admirava, no horóscopo chinês, Tom era gato, o que talvez explique sua implicância com deslocamentos e mudanças. E, no entanto, trocar de endereço foi uma das coisas que ele mais fez na vida.


Gabriela (Tom Jobim)



 Antonio Carlos Brasileiro Jobim nasceu na Tijuca, no Rio de Janeiro. 

Atraído pela música, fez estudos de piano com o professor Hans Joachim Koellreuter, no colégio cuja diretora era sua mãe, dona Nilza. Passou no vestibular para arquitetura, mas cursou apenas dois anos.
Em 1949, casou-se com Thereza Hermanny, com quem teve dois filhos, Paulo e Elizabeth.

Arranjou emprego como pianista da Rádio Clube do Brasil e logo passou a tocar em bares. Para garantir a sobrevivência, trabalhava como arranjador para a gravadora Continental.

Suas primeiras composições incluíram parcerias famosas com Newton Mendonça, que seria seu parceiro em "Desafinado", e Billy Blanco, com quem comporia seu primeiro grande sucess
o, "Tereza da Praia".

Apresentado a Vinícius de Moraes pelo crítico Lucio Rangel, Tom Jobim foi convidado a compor as melodias de "Orfeu da Conceição", peça que estreou em 1956.

Elisete Cardoso gravou "Canção do Amor Demais" em 1958, que sinalizou uma parceria próspera entre Vinícius e Jobim.

Já reconhecido como um dos maiores compositores brasileiros, Jobim escreveu uma sinfonia dedicada a Brasília.

Em 1959, recebeu a Palma de Ouro, em Cannes, e o Oscar pela trilha sonora do filme "Orfeu Negro", dirigido por Albert Camus, inspirado em "Orfeu da Conceição".

Tom Jobim compôs com Vinícius de Morais, em 1963, a música que o tornaria mundialmente famoso, "Garota de Ipanema", uma espécie de hino brasileiro que recebeu centenas de gravações. Em 1967, compôs "Wave", também uma canção de grande impacto.

Na década de 1970, Tom casou-se pela segunda vez, com a fotógrafa Ana Beatriz Lontra, na época com apenas 19 anos, com quem teve dois filhos, João Francisco e Maria Luiza.

Com uma bem-sucedida carreira de shows, gravações, entrevistas e homenagens, Tom Jobim dividia-se entre o Brasil e os Estados Unidos.

Em 1993, vários compositores, entre eles Herbie Hancock e Ron Carter, fizeram um tributo a Tom Jobim, no Free Jazz Festival, em São Paulo. Ainda nesse ano, Jobim lançou um novo álbum, "Antonio Brasileiro", com participação de Dorival Caymmi e Sting.

Depois de se apresentar em duas ocasiões no Carnegie Hall, em Nova York, Tom Jobim fez seu último show em Jerusalém, em 1994.

Acometido de problemas circulatórios, realizou uma série de exames, ao fim dos quais foi constatado um câncer na bexiga. Jobim foi operado no Mount Sinai Medical Center, em Nova York, no dia 6 de dezembro de 1994. Dois dias depois, teve uma parada respiratória e faleceu. Seu corpo foi transferido para o Brasil e enterrado no Rio de Janeiro.


A Casa do Tom no Jardim Botánico.mov



                                    


Casa de Tom em NY

                                    





                                                                    Bossa nova








Associada ao crescimento urbano brasileiro - impulsionado pela fase desenvolvimentista da presidência de Juscelino Kubitschek (1955-1960) -, a bossa nova iniciou-se para muitos críticos quando foi lançado, em agosto de 1958, um compacto simples do violonista baiano João Gilberto (considerado o papa do movimento), contendo as canções Chega de Saudade (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) e Bim Bom (do próprio cantor).



Um embrião do movimento, já na década de 1950, eram as reuniões casuais, frutos de 
encontros de um grupo de músicos da classe média carioca em apartamentos da zona sul, como o de Nara Leão, na Avenida Atlântica, em Copacabana. Nestes encontros, cada vez mais freqüentes, a partir de 1957, um grupo se reunia para fazer e ouvir música. Dentre os participantes estavam novos compositores da música brasileira, como Billy Blanco, Carlos Lyra, Roberto Menescal e Sérgio Ricardo, entre outros. O grupo foi aumentando, abraçando também Chico Feitosa, João Gilberto, Luiz Carlos Vinhas, Ronaldo Bôscoli, entre outros.



Primeiro movimento musical brasileiro egresso das faculdades, já que os primeiros concertos foram realizados em âmbito universitário, pouco a pouco aquilo que se tornaria a bossa nova foi ocupando bares do circuito de Copacabana, no chamado Beco das Garrafas.



No final de 1957, numa destas apresentações, no Colégio Israelita-Brasileiro, teria havido a idéia de chamar o novo gênero - então apenas denominado de samba sessions, numa alusão à fusão entre samba e jazz - , através de um recado escrito num quadro-negro, provavelmente escrito por uma secretária do colégio, chamando as pessoas para uma apresentação de samba-sessions por uma turma "bossa-nova". No evento participaram Carlos LyraRonaldo BôscoliSylvia TellesRoberto Menescal e Luiz Eça, onde foram anunciados como "(...)grupo bossa nova apresentando sambas modernos."






História da música "Lígia" de Tom Jobim...



O quase romance

Os olhos verdes da carioca Lygia Marina de Moraes são morenos na letra de "Lígia". Um disfarce da identidade da musa e da atração de Tom Jobim por ela. Tom e Lygia, professora de pré-primário de uma das filhas do compositor, se conheceram em 1968, no bar Veloso, em Ipanema. Nunca houve nada entre os dois, mas aquele encontro daria origem ao samba-canção gravado por Chico Buarque no LP "Sinal Fechado", em 1974. "O Tom vivia de olho nela", diz o jornalista Ruy Castro, que registrou o episódio no livro "Ela é Carioca" (Cia. das Letras).

Por muitos anos Tom negou que Lygia fosse sua musa, em respeito ao amigo Fernando Sabino, marido dela na época. Só em 1994, quando o casal se separou, ele admitiu a inspiração aos amigos. Hoje, aos 54 anos, Lygia mora sozinha e dirige o departamento cultural da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela recorda com orgulho os detalhes de seu caso jamais consumado com Tom Jobim.
Lygia Marina de Moraes "Conheci o Tom em uma tarde chuvosa. O bar Veloso estava vazio, era junho e fazia frio. Eu e uma amiga, Cecília, nos sentamos na varanda e vimos o Tom conversando com Paulo Góes [fotógrafo]. Os dois acabaram se sentando na nossa mesa. Quando contei ao Tom que era professora da sua filha Beth, ele teve um ataque de riso e disse: 'É a primeira vez que paquera vira reunião de pais e mestres!'. E eu babando: imagine, em 68, Tom era um dos homens mais lindos do Brasil.

Ele tinha que dar uma entrevista a Clarice Lispector para a 'Manchete', e convidou a mim e a Cecília para ir com ele. Fomos no fusquinha azul-claro do Tom. Eu usava uma saia de lã e um suéter de cashmere. Ao abrir a porta, Clarice fez cara de mau humor. Tom, abraçado comigo e com Cecília, disse: 'Trouxe minhas amigas'. Ela ficou mais furiosa quando pediu a Tom que fizesse um poema para ela, como Vinícius [de Moraes] teria feito em entrevista anterior, e ele disse: 'Não sou poeta, se tivesse um violão...'.

Mas aí pegou um bloco de papel-jornal e escreveu um poema para mim, que guardo até hoje: 'Teus olhos verdes são maiores que o mar/ Se um dia eu fosse tão forte quanto você/ Eu te desprezaria e viveria no espaço/ Ou talvez então eu te amasse/ Ai que saudades me dá/ Da vida que eu nunca tive', e assinou: A.C.J.

Saindo de lá, Tom me levou em casa. Nos despedimos no carro, com um beijinho no rosto. Fiquei nervosíssima, mas parou ali. Tom era casado... Aquela carona foi nosso único encontro a sós. A música fala de tudo o que não aconteceu: o cinema, o passeio na praia... Depois nos encontramos muitas vezes, mas sempre em grupo. Logo me casei com o cineasta Fernando Amaral e entrei para a turma. Vivi o auge de Ipanema.

Após quatro anos de casada e um filho, me separei. Depois me casei com o escritor Fernando Sabino. Em 1973, acho que Tom não sabia que eu estava casada com ele, e ligou para o Fernando pedindo meu telefone. Meu marido fez uma sacanagem: deu um número errado. Em seguida, ligou para o telefone que tinha dado e avisou: 'O Tom Jobim vai ligar aí procurando uma Lígia, mas o telefone é tal', e deu outro número errado. Os amigos ficaram sabendo dessa história, inclusive o Tom. Talvez daí tenha surgido a frase na música que fala do telefonema que foi engano.

Estava sozinha em casa quando ouvi no rádio o Chico cantando 'Lígia', pela primeira vez. Fui correndo comprar o disco. Na hora, me vi na letra. Ser homenageada já é maravilhoso, ainda mais pelo Tom, com uma música linda e sofisticada... É uma glória. Claro que a música rendeu comentários e Fernando ficou uma fera. Durante os 19 anos em que fui casada, Tom evitou o tema. Estivemos juntos em vários lugares, tipo réveillon na casa de Jorge Amado, eu com Fernando e Tom com Ana, sua segunda mulher. Mas ninguém falava nisso.

Um dia, Tom me encontrou por acaso na Cobal [sacolão e ponto de encontro] e falou: 'Está chegando minha musa!'. Foi a primeira vez que admitiu para mim. Até hoje, em cada boteco que entro tocam 'Lígia'. Faz parte do meu show. Fiquei imortal. Tenho quase todas as gravações de 'Lígia'. Existe até uma versão do João Gilberto em que, ao contrário da oficial, o romance acontece e Tom até se casa comigo. As pessoas me cobram o fato de nunca ter acontecido nada entre a gente. Mas será que não foi melhor ter ficado essa fantasia? Talvez tivesse de ser essa a história: eu virar musa, entrar em um restaurante e me lembrar do Tom, cheio de charme."


(Frases de Tom)



"Quando uma árvore é cortada ela renasce em outro lugar. Quando eu morrer quero ir para esse lugar, onde as árvores vivem em paz."

"Tristeza não tem fim. Felicidade sim."

"Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho".

"Esse teu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas que eu não posso acreditar...
Doce é sonhar, é pensar que você,
Gosta de mim, como eu de você...
Mas a ilusão,
Quando se desfaz,
Dói no coração de quem sonhou,
Sonhou demais...
Ah, se eu pudesse entender,
O que dizem os seus olhos."

"Não sei se eu ainda
Te esqueço de fato
No nosso retrato
Pareço tão linda
Te ligo ofegante
E digo confusões no gravador
É desconcertante
Rever o grande amor
Meus olhos molhados
Insanos de zembros
Mas quando eu me lembro
São anos dourados
Ainda te quero
Bolero, nossos versos são banais
Mas como eu espero
Teus beijos nunca mais
Teus beijos nunca mais."

"Ah, quem me dera ser poeta
Pra cantar em seu louvor
Belas canções, lindos poemas
Doces frases de amor."

"Fez-se uma pausa no tempo, cesou todo meu pensamento, e como acontece uma flor tambem acontece o amor...Assim, sucedeu assim e foi tao de repente que a cabeça da gente vira só coração..."


Musica Fotografia: 

Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo e o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar
Você tem que ir embora
A tarde cai
Em cores se desfaz,
Escureceu
O sol caiu no mar
E aquela luz
Lá em baixo se acendeu...
Você e eu
Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar já vai fechar
E há sempre uma canção
Para contar
Aquela velha história
De um desejo
Que todas as canções
Têm pra contar
E veio aquele beijo
Aquele beijo
Aquele beijo


5 comentários:

  1. Adoro Tom Jobim. obrigada por postar tantas informações sobre ele, realmente é bom saber um pouco mais.

    Abraços!

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  2. Oi Juliana. Tom é musica e inspiração!
    Pra mim o maior artista brasileiro!
    Venha sempre que quiser, sempre posto algo mais que descubro.

    um abraço!!!

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  3. Fiquei muito emocionada..nunca havia lido uma reportagem tão completa e tão bem escrita.
    Parabéns!

    Silvana

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  4. ELE ERA UM HOMEM MARAVILHOSO E INTELIGENTE E ERA TUDO.....ABRAÇOS......LUIZ MENDES...BELEM-PA.

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  5. Alguem sabe a historia da musica Isabela de Tom Jobim :D ?

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